Freud e o sistema percepção-consciência (Wahrnehmungssystem) : Joël Bernat

« A percepção é para o ego o que a pulsão é para o id »  » :  – é assim que Freud resume suas pesqui . sas sobre o sistema percepção-consciência, o qual está presente do inicio ao fim de sua obra. Este estudo, que nada tem de filosófico, tenta responder a uma pergunta central: como uma percepção inconsciente pode tornar-se consciente? Essa questão concerne tanto à construção psiquica, à clínica e à técnica analitica quanto ao método de trabalho de Freud. Tentamos restituir aqui todo o seu interesse.

Abstract

Freud and the perception-conscience system (Wahrnehmungssystem)

« Perception if for the ego what drive is for the id »: thus Freud summarized his research on the perception-conscience system, which is present from the beginning to the end of his work. The present study, which is not philosophical at all, tries to answer one central question: how can an unconscious perception become conscious? This question is related to the psychic, to the clinical construction and to the analytical technique and also to Freud’s work method. We try to awaken here all its interest.

Keywords: Perception-conscience system. Representation (of things, of words, conscious). Nemic traces. Ego. Conscience. Repression. Refusal. Rejection. Renial. Cleavage.

Resumen

Freud y el sistema percepción-consciencia (Wahrnehmungssystem)

« La percepción es para el ego Io que la pulsión es para el id »: así resurne Freud sus investigaciones sobre el sistema percepción-consciencia, lo que está presente desde el comienzo hasta el final de su obra. Este estudio, que nada tiene de filosófico, trata de responder a una pregunta central: cómo puede una percepción inconsciente volverse consciente? Esa cuestión concierne tanto a la construcción psíquica, a la clínica y a la técnica analítica como al método de trabajo de Freud. Tratamos de restituir aquí todo su interés.

Palabras Ilave : Sistema percepción-consciencia. Representación (de cosa, de palabra, consciente). Rasgos mnésicos. Yo. Consciencia. Recalque. Rehúso. Rechazo. Denegación. Clivado.

 

 

Introdução

O sistema percepção-consciência (Pc-Cs) não está entre os conceitos fundamentais da psicanálise atual. No entanto, se realizarmos um exaustivo trabalho de leitura cronológica dos escritos de Freud, veremos que esse conceito está presente desde Projeto para uma psicologia científica, a famosa Neurótica, de 1895, até Esboço de psicanálise de 1938. Entre estas duas datas, o leitor tem a impressão de que Freud não parou de fazer acréscimos explicativos nesse sistema, de tal modo que, quando reunimos todas as notas esparsas, podemos nos perguntar se não se trata, na verdade, do próprio embasamento da metapsicologia e da técnica analítica de Freud ou mesmo de seu método de trabalho.

Todavia, a crítica dos autores franceses é bastante severa, como veremos, e responsável pelo esquecimento atual desse sistema. Mas, devido às anotações esparsas de Freud e à inexistência de um texto que reunisse verdadeiramente suas pesquisas sobre o assunto, talvez essa crítica tenha tido apenas uma visão parcial da questão. Aliás, isso pode facilmente ser percebido:

– alguns deram ênfase à consciência e não à percepção; o enfoque da consciência foi imediatamente associado a uma preocupação filosófica atribuída a Freud, e veremos o quanto isso é equivocado;

– outros associaram o sistema Pc-Cs à noção do tornar-se consciente[1], à qual tal sistema fica então reduzido, sendo, consequentemente, criticável e criticado (resumido a uma noção filosófica ou psicológica);

– outros ainda, por fim, como Lacan (1949a)[2], misturaram o sistema Pc-Cs com o eu.

Essas críticas resultam de um deslocamento: ante a extensão do estudo freudiano, uma noção é reduzida e limitada a uma outra que, por sua vez, pertencente à filosofia ou à psiquiatria, é mais conhecida e, portanto, mais fácil de comentar. Só que essa operação que consiste em subordinar um conceito a um outro, esse deslocamento injustificado, já mereceria um questionamento. De toda maneira, esses deslocamentos foram suficientes para desinteressar os psicanalistas franceses dessa noção freudiana.

Por isso, sinto-me feliz com a oportunidade que me é oferecida pelos psicanalistas brasileiros da Revista da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre de tentar despertar o interesse por esse estudo freudiano de longo curso.

Considerações gerais

A questão da percepção, que ocupa os primeiros capítulos de Projeto para uma psicologia científica (Freud, 1895)[3], é, sem dúvida, uma herança da prática pré-analítica. De fato, tanto a hipnose como o método catártico mostraram que o sintoma podia desaparecer se a rememoração de uma percepção particular, originária, se tornasse possível, isto é, se voltasse a ser consciente[4]. Foi esse ponto que levou Freud a uma indagação mais geral: como é que um elemento perceptivo pode se tornar um elemento psíquico consciente, sabendo-se que, na fonte, o processo sensorial da percepção sempre é inconsciente, uma vez que é uma produção dos órgãos dos sentidos[5]? Este percepto pode ser o de um estímulo proveniente do mundo externo ou do mundo interno (proveniente do id, do corporal, etc.).

O sistema Pc-Cs representa supostamente o trajeto psíquico e o conjunto das ações psíquicas que fazem com que um elemento percebido possa ou não se tornar uma representação consciente. Como se pode imaginar, tal definição abrange a maior parte do funcionamento psíquico.

Gostaríamos de destacar também que Freud insiste, em seus escritos, no processo de percepção, e isso não só nos primeiros textos. Lembremo-nos, por exemplo, do que Freud escreve, em 1923, acerca do reconhecimento do inconsciente, o schibboleth da psicanálise:

[…] a distinção entre consciente e inconsciente é, em última análise, uma questão de percepção, à qual deve ser respondido sim ou não, e o próprio ato da percepção nada nos diz da razão por que uma coisa é ou não percebida. Ninguém tem o direito de queixar-se porque o fenômeno concreto expressa ambiguamente o fator dinâmico. (p. 260)

Voltaremos a essa afirmação.

Um outro exemplo da importância do aparelho perceptivo para Freud é o da origem do eu. Em 1938, no fim de sua vida, Freud volta à sua tese (já presente em 1895 em Projeto para uma psicologia científica, retomada, por exemplo, em 1923 em: O eu e o id):

Sob a influência do mundo externo que nos cerca, uma porção do id sofreu um desenvolvimento especial. Do que era originalmente uma camada cortical, equipada com órgãos para receber estímulos e com disposições para agir como um escudo protetor contra estímulos, surgiu uma organização especial que, desde então, atua como intermediária entre o id e o mundo externo. A esta região de nossa mente demos o nome de eu. (Freud, 1938a, p. 4)

Por um lado, isso indica que o sistema Pc-Cs é o solo, a base do eu (o que não significa que seja a totalidade do eu e não autoriza uma psicologia do eu). Essa origem cortical é, pois, estritamente inconsciente e forma assim uma parte do inconsciente do eu (a segunda tópica foi então necessária para distinguir as partes inconscientes da psique, as do eu e do supereu em relação ao id).

Por outro lado, a psique, devido a essa dimensão perceptiva, estende-se ao corpo inteiro, sendo, portanto, irredutível ao cérebro, o que sempre é designado por Freud em termos de espacialidade:

O eu é, primeiro e acima de tudo, um eu corporal; não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é, ele próprio, a projeção de uma superfície [Acréscimo de 1927: em última instância, o eu é derivado de sensações corporais, principalmente daquelas que se originam na superfície do corpo. Pode assim ser encarado como uma projeção mental da superfície do corpo […] representa a superfície do aparelho mental] […] poderemos identificá-lo melhor com o homúnculo cortical dos anatomistas (Freud, 1923, p. 270)[6]

Não devemos esquecer também que nessa superfície encontramos tanto o aparelho perceptivo quanto o fenômeno da consciência:

A consciência, como dissemos, forma a superfície do aparelho psíquico, ou seja, encontramos na consciência uma função que atribuímos a um sistema que, do ponto de vista espacial, está mais próximo do mundo externo. Essa proximidade espacial deve ser entendida não apenas no sentido funcional, mas também no sentido anatômico (Freud, 1920a, p. 263-264)

Surge aqui um ponto essencial: o fenômeno da consciência pode produzir-se somente sob a forma de percepção, isto é, no sistema perceptivo[7]. Ponto essencial, mas um tanto delicado! Isso será retomado mais adiante.

No que diz respeito à proteção contra as excitações, ela será assegurada por elementos como o pára-excitações, os princípios de Nirvana[8] e de constância[9] e, por fim, os atos psíquicos de negação[10].

Assim, se o id é pulsão, o eu é percepção.

Enfim, Freud não inventou o sistema percepção-consciência. Como escreveu em Um estudo autobiográfico (1925a), ele o enriqueceu com descobertas ligadas às observações analíticas. De fato, Freud se insere numa corrente de pensamento bem específica, a das Luzes, principalmente inglesa (Newton, Bacon), que, antes de qualquer estudo e trabalho de pensamento, preconizava o estudo das condições da percepção. Essa atitude pode ser explicitamente encontrada na corrente filosófica anti-metafísica (principalmente na obra de Franz Brentano, seu professor de filosofia[11]), mas também nas ciências físicas (Heisenberg ou Einstein), na literatura (Goethe) e nos laboratórios de fisiologia onde Freud iniciou com Brücke[12]. Devido à sua dupla formação (neurológica e filosófica), Freud esboçará então, em sua Neurótica, uma espécie de síntese dos saberes neurológico, filosófico e psicopatológico.

Alguns marcos referenciais

Eu gostaria de mencionar brevemente aqui os artigos que me parecem ser mais importantes para a questão que nos interessa.

O primeiro artigo é seguramente Projeto para uma psicologia científica, escrito em 1895, no qual Freud define um modelo de aparelho psíquico (na verdade, é o modelo do eu) composto:

– pelo sistema φ, responsável pela percepção dos estímulos externos;

– pelo sistema ψ formado pelos processos primários, em que são registradas as percepções sob forma de traços mnésicos, cujo papel principal (é um axioma ao qual Freud não renunciará) é lutar contra qualquer estímulo[13];

– e pelo sistema ω, a consciência.

O sistema Pc-Cs é um sistema que promove a junção do mais sensorial com o mais mental e dá conta do trajeto da percepção à representação, partindo do somático (o sistema φ), passando pelo psíquico (sistema ψ), terminando na consciência (o sistema ω)[14].

Um pouco mais tarde, em 1899, esse sistema e esse trajeto foram esquematizados em A interpretação dos sonhos onde os lugares psíquicos são organizados em torno de um eixo:

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(S) é a extremidade sensitiva da psique, onde se produz a excitação perceptiva (é a camada cortical original dotada de órgãos de percepção). Essa excitação é recebida pelo sistema perceptivo (P), que dela não armazena traços duradouros. Se aquilo que foi percebido entrar em contato com os traços mnésicos (S1 & S2), produz-se um primeiro tipo de representação – portanto, um traço duradouro –, mas esta será inconsciente (Inc.). Quando esta primeira representação entra em contato com um outro registro de traços mnésicos – os traços verbais – situado no pré-consciente (Prec.), a representação é transformada em representação verbal[15]. Depois, chegamos à outra extremidade da psique, a extremidade motora (M), onde, bem mais tarde, Freud situará a prova de realidade.

Assim, já em 1900, está posta a trama do sistema Pc-Cs, e as elaborações posteriores continuam a enriquecê-lo. Nesse sentido, vários textos podem ser destacados, como:

            – 1911, Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental (1911);

            – 1914, Recordar, repetir e elaborar (1914);

            – 1915, Suplemento metapsicológico à teoria do sonho, e os artigos ditos de Metapsicologia (1915);

            – 1920, Além do princípio de prazer (1920).

            Em 1923, com o advento da segunda tópica, Freud reformula suas aquisições em O eu e o id, com aquela fórmula que – devemos lembrar – não teve grande sucesso: “A percepção é para o eu o que a pulsão é para o id”. Essa formulação é importante na medida em que indica, tal como no caso pulsão em relação ao id, o lugar exato da percepção: é ela que move o eu, que o impele a agir ou a reagir; não se trata da percepção, segundo uma posição filosófica pela qual Freud é equivocadamente criticado, como algo que produziria a unidade do sujeito percipiens. Tal como as pulsões, as percepções estão bem mais do lado do parcial e do fragmentado que do lado da síntese. Se, por um lado, o sistema perceptivo faz parte da superfície corporal do eu, se está na origem dessa instância, por outro, ele não é o eu, sendo bem mais aquilo que, em reação, o impele ao trabalho psíquico: isso dá sentido às fórmulas de negação que o eu opõe às excitações percebidas.

Nesse texto, Freud explica principalmente o papel das representações de palavra e, portanto, do pré-consciente, ampliando as contribuições de 1915, como, por exemplo, aquelas do artigo O inconsciente.

Em primeiro lugar, um postulado: o fato de as representações verbais serem traços mnésicos provenientes, principalmente, das percepções acústicas significa que foram antes percepções e, como todos os traços mnésicos, podem tornar-se conscientes de novo. Portanto,

somente aquilo que já foi uma percepção consciente pode tornar-se consciente e, fora os sentimentos, tudo o que, proveniente do interior, quiser se tornar consciente, deve transformar-se em percepções externas, transformação esta que só é possível mediante os traços mnésicos. (Freud, 1923, p. 264-265).

O traço mnésico é uma condição sine qua non do fenômeno da consciência.

Mas o fato de as representações verbais terem essa origem perceptiva tem uma conseqüência importante:

Através delas, os processos internos de pensamento são transformados em percepções. É como uma demonstração do postulado de que todo conhecimento é oriundo da percepção externa. Quando há um superinvestimento do processo de pensamento, os pensamentos são realmente percebidos – como se viessem do exterior – e, por isso, tidos como verdadeiros. (Ibid., p. 267).

Seguindo uma tradição filosófica (Hegel, Heidegger, etc.), Freud joga muito, como é o caso aqui, com a palavra Wahrnehmen, que, etimologicamente, significa tomar verdade, isto é, perceber, e a expressão für wahr halten, ou seja, ter como verdadeiro. Veremos a importância desse fenômeno, mesmo que seja apenas no plano da teorização.

Penso que é importante entender que a camada perceptiva é para o eu como uma tela de projeção, como se o eu fosse espectador da percepção, portanto, agido pelo percebido. Além disso, como veremos, o que aparece nessa tela suscita a convicção ou a crença do eu.

Em 1924, Freud redige Uma nota sobre o bloco mágico. Nesse artigo, que antecipa um pouco A negativa (1925b) Freud desenvolve uma analogia entre o bloco mágico e o aparelho psíquico, cuja idéia principal se resume na seguinte observação: o destacamento do papel de celulóide e do papel encerado suprime o traço escrito, o que representa o ato psíquico e o efeito da negação, mas esse traço escrito é conservado na camada de cera, mesmo não sendo visível, exceto sob uma iluminação apropriada: essa camada de cera (sistema mnésico) é evidentemente inconsciente. O fenômeno de consciência aparece então cada vez que houver contato entre essas camadas[16].

No mesmo ano, Freud escreve Inibições, sintomas e ansiedade (1926), onde retoma novamente a questão da atribuição perceptiva: o sistema Pc-Cs é a essência do eu (sua origem e não seu todo), que reage, segundo as leis do princípio de prazer, através das sensações de prazer-desprazer, tanto às excitações externa como às internas. Suas defesas, ante um perigo, consistem em retirar do objeto perigoso o investimento perceptivo ou então uma ação muscular que torne impossível a percepção desse perigo. Isso define o princípio dos processos de negações como elaboração do pára-excitações[17].

            Por fim, citemos também:

            – 1932, Novas conferências introdutórias sobre psicanálise (1932a);

            – 1932, A aquisição e o controle do fogo (1932b);

            – 1936, Um distúrbio de memória na Acrópole. Carta aberta a Romain Rolland por ocasião de seu setuagésimo aniversário (1936);

            – 1938, Esboço de psicanálise (1938b)

            Antes de tentarmos fazer uma síntese do trajeto da percepção à consciência e dos atos psíquicos que a ele se opõem, cabe lembrar que a última representação tópica de Freud[18] apresenta as particularidades a seguir, numa analogia com a representação do cérebro:

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  • o id (Es), primordial, aberto para o soma, lugar de recepção das expressões somáticas e da ligação destas com os primeiros representantes (os da pulsão: aqui, Freud utiliza o termo Vertretungen[19] – ver abaixo);
  • o supereu (Überich) posto sobre a psique para marcar que sua criação é um produto linguageiro de origem externa (origem reforçada pelo fato de estar situado à esquerda, tal qual, diz Freud, a localização da zona da linguagem no cérebro[20]);
  •  o eu (Ich) como superfície de triplo contato: com o id, o supereu e o mundo externo; é antes de tudo uma extensão corporal como órgão perceptivo, isto é, desenvolvido pelos estímulos ou percepções internas e externas, mas essa parte do eu (perceptivo) permanece estritamente inconsciente;
  • por fim, o sistema Pc-Cs, W-Bw (Wahrnehmung – Bewusstsein) em posição proeminente e o pré-consciente (vorbewusst) logo atrás;
  • a linha pontilhada (fronteira dos três inconscientes – do eu, do supereu e do id) indica claramente que o eu (Ich) tem uma parte inconsciente (unbewusst) na qual Freud situará, entre outros, os mecanismos de defesa e de negação, tais como o recalque (verdrängt).

A elaboração de Freud

Tentaremos agora fazer uma síntese dos elementos dispersos na obra de Freud, síntese esta que requer muita cautela.

Trajeto inconsciente

 

1-              A camada cortical, que abriga os órgãos da percepção, recebe uma excitação. Trata-se de um fenômeno estritamente somático, portanto, inconsciente. Essa “extremidade sensitiva da psique” divide-se em duas faces:

– na face externa, encontra-se o pára-excitações, destinado a reduzir a amplitude das excitações que vêm de fora (Freud, 1920b, 1924) e que funciona segundo os princípios de constância e de Nirvana. Em todo caso, para Freud, parece se tratar de um limite orgânico;

– na face interna, inscreve-se o sistema Pc-Cs.

Essas duas faces constituem o sistema perceptivo e o ponto de contato do somático com o psíquico (assim como a pulsão, o contato do somático com o id). É também nesse ponto que Freud situa o fenômeno da consciência[21].

2-              Quando uma excitação, seja ela de origem interna ou externa, atravessa essa primeira barreira constituída pelo pára-excitações, ela chega então ao psiquismo pelo sistema Pc-Cs e, a partir desse momento, sofrerá dois modos de ligação:

2-a – uma ligação da percepção com os traços mnésicos: se não ocorrer essa ligação, não haverá traços, isto é, não haverá atribuição nem possibilidade de consciência. Essa ligação com os traços mnésicos (visuais, cinestésicos, etc.) não tem senão uma dimensão qualitativa, a percepção em si mesma não sendo investida por nenhum afeto[22];

2-b – uma segunda ligação acrescentará uma dimensão quantitativa, a ligação com traços afetivos (os quantum de afetos), ou seja, a percepção recebe uma carga libidinal, um investimento de afeto através das pulsões sexuais. Isso se produz segundo o eu prazer/desprazer e o princípio de prazer, o que constituirá o juízo de atribuição[23]:

o sistema Pc-Cs recebe excitações internas e externas e, por intermédio das sensações de prazer e desprazer que o atingem a partir do interior, tenta orientar todo o curso da atividade psíquica no sentido do princípio de prazer (Freud, 1926, p. 8)

Isso permitiria uma primeira codificação da excitação percebida: boa ou tranqüilizadora, ruim ou fonte de tensão.

A ligação se estabelece de acordo com um complexo jogo de facilitações[24]. É tão somente ela que permite um primeiro nível de representação a que Freud denominou representação de coisa (Sachvorstellung ou Dingvorstellung) ou representação de objeto, ou seja, uma percepção + um traço mnésico + uma carga libidinal. A partir desse momento da ligação, existe[25] um traço psíquico, portanto, um traço duradouro, mas sempre inconsciente.

3-              Se a representação de coisa for plenamente atribuída, ou seja, se não sofrer nenhuma negação (ver a seguir), ela continuará seu trajeto no eu.

Trajeto pré-consciente

4-              Para se tornar consciente, essa representação de coisa deve estar ligada a representações verbais (que estão armazenadas na parte pré-consciente do eu[26]). Essa ligação é a condição que dá a possibilidade de consciência. Ela pode ter dois destinos:

4-a – se a representação de coisa estiver ligada a traços mnésicos verbais que permitem re-(a)presentar o percebido (vorstellen), essa ligação gera uma representação de palavra (Wortvorstellung) que não deforma nem refuta a representação de coisa;

4-b – se a representação de coisa estiver ligada a traços verbais substitutivos que deformam o percebido – vertreten – e se apresentam como se fosse uma representação de coisa[27], tais traços verbais não representam, mas tomam o lugar, e pertencem:

– ora à parte pré-consciente do eu, constituindo núcleos verbais sensíveis segundo as facilitações existentes ou fixações patogênicas, ou então passam por uma elaboração secundária, por um trabalho de deformação (Entstellung): é o caso, por exemplo, de elementos recalcados que retornam sob forma de substitutos;

– ora à parte inconsciente do supereu: palavras ou símbolos a serviço da censura, herdados ou transmitidos, e pré-formados[28], formas culturais, etc.

Muitas vezes, vertreten e vorstellen foram traduzidos apenas por representar, suprimindo assim as operações diferentes que as duas palavras indicam: apresentar no lugar de, apresentar de novo.

Trajeto consciente

 

5-              Uma representação, então, só pode se tornar consciente se for constituída pela ligação de uma representação de coisa com uma representação de palavra, essa ligação podendo ser verdadeira ou falsa, o que dá dois registros de representação consciente.

Consciência e retorno ao sistema perceptivo

O destino de uma percepção na representação não termina aí. Na verdade, o fato de ter-se tornado consciente significa que ela refez o caminho inverso para o sistema perceptivo para ser percebida, uma vez que o fenômeno da consciência aparece no sistema perceptivo, no lugar dos traços duradouros[29].

            O fenômeno da crença

6                    – Uma representação projetada na extremidade perceptiva do sistema Pc-Cs assume o caráter de uma percepção consciente, o que suscita imediatamente a crença, pois é vivida como vinda do exterior[30].

Por isso, os pensamentos ou as observações são suspeitos: são coisas reais ou projeções? Uma teoria é um delírio, uma ficção, uma visão do mundo (Weltanschauung) ou será que dá conta dos fatos reais? Vemo-nos então diante da questão da diferenciação entre realidade psíquica e realidade material. Como fazer essa diferenciação? Parece-me que essa é a razão pela qual Freud acrescenta uma última operação, essencial, no trajeto percepção – consciência – percepção.

A prova de realidade ou julgamento de existência e a renúncia

7                    – Uma representação recebida na consciência deve passar por uma última prova (sempre essencial na psicanálise): se não for negada na consciência, a representação pode então ser encontrada na realidade externa ou na realidade do inconsciente – ou não? Este é o momento da prova de realidade.

 

7-a – Se for encontrada na realidade externa ou na realidade do inconsciente[31], então a representação existe no sentido da realidade – externa ou inconsciente: isso constitui o julgamento de existência[32]. Desde então, a representação consciente pode ser afirmada no sentido da Bejahung;

7-b – As representações que substituem (vertreten) não são postas à prova de realidade: não são encontradas na realidade externa ou no inconsciente, sendo, portanto, apenas componentes da realidade psíquica, e a elas dever-se-ia renunciar. Suas afirmações pertenciam então a Behauptung [33].

A renúncia (Verzicht) é um termo importante na obra de Freud, sendo até mesmo uma das metas do tratamento analítico. Por exemplo, para ele, trata-se de liberar a sexualidade psíquica do sujeito (que se exaure por recalcá-la constantemente e, portanto, sofrê-la em retorno) e substituir o recalque por uma renúncia consciente. Freud traz alguns esclarecimentos acerca desta, que foram relatados por Otto Rank em Minutes de la Société Psychanalytique de Vienne: a repressão é um recalque consciente, em oposição ao recalque orgânico inconsciente, cujo resultado é uma censura. Reprimir seria manter a representação, controlando ao mesmo tempo o afeto. Assim, a psicanálise ajuda a substituir o recalque por uma repressão normal[34], o que, sem dúvida, esclarece a famosa fórmula de Freud: Wo Es war, soll Ich werden [onde está o id lá estará o eu][35]. O papel do psicanalista consistiria, pois, em desvelar a sexualidade tornando consciente seu recalque. Em seguida, o indivíduo aprende a subordiná-la às exigências da civilização, substituindo seu recalque por uma repressão consciente e sadia[36].

            As negações

O trajeto que acabamos de descrever, indo da percepção à representação consciente, pode ser interrompido pelos atos psíquicos de negação. Tentaremos situá-los no sistema Pc-Cs, sabendo-se que isso nem sempre ficou claro em Freud, tanto mais que a elaboração dos mecanismos de negação (como defesas inconscientes do eu) estende-se em toda a sua obra. Por exemplo:

– a rejeição* aparece em 1894 em As neuropsicoses de defesa[37];

– a recusa está presente nos Estudos sobre a histeria de 1895;

– em 1905, recalque e rejeição são idênticos, diferenciados apenas por uma questão de intensidade (a rejeição é um recalque bem-sucedido, pois diz respeito tanto à percepção ou à representação quanto ao afeto). Por exemplo, em 1908, em Sobre as teorias sexuais das crianças, Freud escreve a respeito da criança que “o fracasso de seus esforços intelectuais a faz rejeitar e esquecer” uma teoria sexual infantil. Mas, neste caso, trata-se do recalque;

– em 1917, o recalque é diferenciado da recusa e da rejeição, sendo os dois últimos equivalentes até 1927;

– em 1925, Freud define a Verneinung, a (de)negação, ao mesmo tempo em que aparece o termo Bejahung, afirmação;

– por fim, em 1927, ele considera a recusa como sendo específica da perversão, enquanto a rejeição fica reservada à psicose.

Essa distinção[38] deve ser moderada para não cair numa ilusão estruturalista, uma vez que existem, por exemplo, recusas ou rejeições na neurose (acessos delirantes, episódios alucinatórios, etc)[39].

Como veremos, a rejeição, a recusa e o recalque não incidem sobre os mesmos registros de representações: ora sobre a representação verbal, ora sobre a representação de coisa e de objeto, ora sobre representação ou afeto. Além disso, esses elementos negados pelo eu, permanecendo ou tornando-se de novo inconscientes, não o são nas mesmas instâncias. Foi por isso que Freud descreveu clivagens do eu e clivagens eu/ id. Isso não deixa de ter implicações na prática.

O recalque: Verdrangung

Essa negação recusa à consciência uma representação consciente[40] que volta a ser inconsciente (como recalcada, mas, neste caso, no id e não no sistema Pc-Cs); ela retornará sob a forma de sonho, lapso, ato falho, sintoma, etc. O recalque produz uma clivagem entre o eu e o id.

A (de)negação: Verneinung

Neste caso, se a representação pode ter acesso à consciência, o afeto que está ligado a ela é, por outro lado, recusado pelo mecanismo da denegação (Verneinung), afeto este que será então recalcado (no id). Haverá apenas um reconhecimento intelectual, o afeto podendo retornar por uma outra via (motora, por exemplo).

A rejeição: Verwerfung

A representação de coisa é rejeitada pelo mecanismo da Verwerfung (rejeição), permanecendo, portanto, psiquicamente inconsciente. Mas surge aqui uma questão: de que inconsciente se trata? Segundo Freud, a rejeição ataca e desfaz a representação de coisa (isto é, a ligação libido/ traço mnésico), o que geraria dois destinos diferentes de seus componentes:

a – a percepção ligada aos traços mnésicos é rejeitada no sistema Pc-Cs, não no id, e permanece inconsciente nessa parte do eu, o que produz uma clivagem do eu. A percepção é rejeitada, mas para uma exterioridade psíquica, isto é, ela volta à extremidade perceptiva (P), para, então, retornar[41], por exemplo:

– sob forma de alucinação (a alucinação apresenta o percebido de maneira deformada – pelos processos primários –, mas esse percebido constitui, por outro lado, um núcleo de verdade[42]);

– ou então no delírio, que é uma tentativa de elaborar uma representação (ou uma simbolização) de compensação ou substitutiva da percepção rejeitada (uma espécie de substituto de representação verbal), permanecendo esta o elemento central, embora não apareça claramente no delírio;

b – essa reprojeção da percepção na extremidade perceptiva (aquilo que retorna) é possibilitada pelo fato de que a rejeição retira o investimento libidinal da representação de coisa, que assim volta a assumir o caráter de percepção. Essa libido retirada do objeto (ao contrário do luto, em que o objeto é retirado da libido) retornará à extremidade perceptiva e se religará à percepção; essa carga libidinal é a causa do fenômeno de crença (a alucinação – o retorno da percepção – é tida como realidade) e, portanto, do fenômeno alucinatório. Porém, nesse ínterim, a libido retirada da representação de objeto volta para o inconsciente (mas desta vez, trata-se do id), sofre transformações (por exemplo, o desejo se converte em hostilidade), antes de voltar à extremidade perceptiva.

É importante destacar que isso produz uma dupla inscrição e, portanto, uma clivagem no eu[43] (clivagem entre o eu e o sistema mnésico): se, por um lado, o percebido é rejeitado para uma exterioridade psíquica inconsciente, por outro, faz-se uma outra inscrição no eu, aquela de um traço vazio ou de um branco no pensamento[44] (pensemos na bela fórmula de Winnicott, segundo a qual algo aconteceu, mas não encontrou lugar para inscrever-se e ser mentalizado[45]), ou então a elaboração de um delírio ligado às formas do retorno daquilo que foi rejeitado. A clivagem psicótica é essa tensão constante entre o eu do rejeitado e a coisa rejeitada que retorna. Quanto ao delírio, podemos entendê-lo como tentativa de atribuição daquilo que é rejeitado. É nesse sentido que o rejeitado contém um núcleo de verdade (a percepção) e é esse reconhecimento que está em questão na transferência psicótica: o não-atribuído e, portanto, não-experimentado retorna para ser experimentado, atribuído e depois elaborado; é isso que geralmente toma o analista nessa transferência.

A recusa: Verleugnung

A representação e sua percepção são aceitas num primeiro tempo – até o ponto de serem conscientes –, mas podem ser julgadas inaceitáveis a posteriori. Então, intervém o mecanismo da recusa ou desmentida (Verleugnung) que apaga a percepção como se nunca tivesse acontecido[46], voltando assim a ser inconsciente (mas no sistema Pc-Cs e não no id) e sendo mantida pelo mecanismo da clivagem do eu. Existem então duas correntes no eu: uma que recusa (por exemplo, a castração) e outra que a reconhece ou, para ser mais exato, uma corrente que recusa o significado da castração e a outra que reconhece sua percepção.

Segundo o princípio da dupla inscrição, existirá um traço no eu: se o elemento recusado permanecer inconsciente, o retorno do recusado se dará pelo investimento da percepção contígua àquela que é recusada. Essa percepção contígua, por sua vez, será consciente, por exemplo, sob a forma do fetiche[47]. Essa dupla inscrição é mantida separada pelo mecanismo da clivagem, o que faz com que os dois elementos possam perfeitamente coexistir.

Retornos

A questão é ainda mais complexa quando se percebe que um elemento negado retorna e que, nesse momento, pode ser negado por um mecanismo diferente, o que produzirá uma nova dimensão e um outro circuito de retorno, etc. Freud nos dá um exemplo com o Homem dos Lobos. De fato, Freud constata que existem três correntes na vida psíquica do paciente:

– uma, a mais antiga, que rejeita a castração: não há nenhum julgamento sobre sua existência como se não existisse; então, o rejeitado retorna, aos cinco anos, na alucinação do dedo cortado. Porém, devido à dupla inscrição, no lugar do que foi rejeitado, funcionam a teoria da relação pelo ânus (o que mantém a crença na existência de um único sexo, o masculino) e os sintomas histéricos (os intestinos);

Uma outra corrente mais tardia, mas coexistindo com a primeira, reconhece a castração como fato e subdivide-se em duas tendências:

– uma que a aceita e se consola com a feminilidade como substituto (vertreten);

– a outra que se rebela e cede à castração, com pavor.

Podem então coexistir na psique várias camadas de elaborações, correspondendo cada uma a um trajeto no sistema Pc-Cs, assim como podem coexistir – e nisso Freud insiste – mecanismos de negação tais como o recalque, a recusa e a rejeição. Isso o levava a sustentar que pode haver momentos alucinatórios ou acessos delirantes numa neurose.

Conclusão

Esse sistema Pc-Cs é a chave do método psicanalítico[48], tanto de sua prática[49] quanto de sua teorização. A posição de Freud é muito clara: no início, é o ato (perceptivo, depois psíquico) e bem mais tarde, o verbo.

É, portanto, também uma proteção, pois colocar a questão da percepção e de seu ato no início de todo pensamento constitui uma garantia contra a elaboração de teses metafísicas, sistemas ou visões de mundo[50], coisas estas que não podem senão prejudicar a prática e a escuta na medida em que criam a priori.

Como se vê, a concepção freudiana não tem muito a ver com uma preocupação filosófica.

Referências

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Tradução de Vanise Dresch

Revisão técnica de Luciane Falcão

Joël Bernat

e-mail: joel.bernat@free.fr

Ó Joel Bernat

Versão em português Revista de Psicanálise – SPPA


* Psicanalista Membro da Associação Psicanalítica da França.

[1] Noção desenvolvida por Henri Ey (1963), por exemplo, em: “être conscient, c’est disposer d’un modèle personnel de son monde” [ser consciente é dispor de um modelo pessoal de seu mundo]. O tornar-se consciente em Freud, como veremos, não está ligado ao enfoque de um poder da consciência tendo como finalidade uma consciência ampliada, como puderam sustentar as orientações fenomenológicas (Husserl, Binswanger ou Merleau-Ponty) e cartesiana (Alfred Binet, Pierre Janet ou José Breuer), seguindo o fio de uma utopia da filosofia (desde Platão): o Logos (e a hiperdoxa) seria a via de acesso a um conhecimento de si diante do sujeito percipiens do mito da Caverna.

[2] Ver J. Lacan (1949a, p. 99): “[…] toda nossa experiência se opõe na medida em que nos impede de conceber o eu como estando centrado no sistema percepção-consciência, como sendo organizado pelo princípio de realidade, em que se formula o preconceito cientificista mais contrário à dialética do conhecimento […]”. Ver também (Ibid., 1949b, p. 116): “[…] as dificuldades teóricas encontradas por Freud nos parecem de fato se dever a essa miragem de objetivação, herdada da psicologia clássica, que a idéia do sistema percepção-consciência constitui, em que, de repente, parece desconhecido o fato de tudo o que o eu negligencia, escotomiza, ignora nas sensações que o fazem reagir à realidade, assim como tudo o que ignora, esgota e liga nas significações que recebe da linguagem: desconhecimento bem surpreendente ao conduzir o próprio homem que soube forçar os limites do inconsciente pela força de sua dialética.”

[3] Por exemplo: “[…] por que os processos de excitação nas neuroses da percepção (Nω) despertam a consciência?”

[4] Ver, por exemplo, Freud (1909). A fobia da água, de Ana O., está ligada à cena esquecida do cão lambendo um copo. A recuperação de uma lembrança suprime o sintoma. Isso não quer dizer que Freud postule uma regra de tradução sistemática dos conteúdos inconscientes em conteúdos conscientes do tipo: uma fobia = uma lembrança esquecida.

[5] Ver, por exemplo, capítulo VII, seção II sobre a regressão. Freud (1900).

.

[6] Lembremo-nos do comentário de Winnicott (1949): “Cabe perguntar por que o indivíduo tem tendência a localizar a mente dentro da cabeça. Confesso que disso nada sei. Tenho a impressão de que o importante é a necessidade que tem o indivíduo de localizar a mente pelo fato de ser ela um inimigo a ser dominado”.

[7] “O consciente, para mim, não é senão o ato da percepção. Uma representação pode existir mesmo que não seja percebida, por outro lado, o sentimento, consiste na própria percepção”. (Freud, 1922, p. 160)

[8] Nirwanaprinzip: termo de Bárbara Low retomado por Freud para designar a tendência do aparelho psíquico a reduzir a zero ou ao menos reduzir tanto quanto possível qualquer quantidade de excitação de origem externa ou interna.

[9] Konstanzprinzip: princípio segundo o qual o aparelho psíquico tende a manter no nível mais baixo ou ao menos tão constante quanto possível a quantidade de excitação nele contida. A constância é obtida, de um lado, pela descarga da energia já presente e, do outro, pela evitação do que poderia aumentar a quantidade de excitação e pela defesa contra esse aumento.

[10] Trata-se essencialmente da rejeição, da recusa, do recalque e da denegação.

[11] Brentano é um dos fundadores da psicologia moderna como ciência destinada a servir de base para qualquer disciplina e resolver os problemas filosóficos. Para isso, essa psicologia tinha de ser descritiva e não mais genética. Ele postula os fundamentos desta em 1874, em Psychologie du point de vue empirique, cuja tese principal é a idéia de que o fenômeno psíquico é uma representação construída a partir de atos psíquicos mais complexos, tais como os julgamentos, os desejos e os afetos. O ato psíquico traz em si a intenção em relação ao objeto ao qual se refere. Percorrer os escritos de Brentano permite identificar em que Freud apóia sua teorização, principalmente no que diz respeito ao trecho do trajeto da percepção à consciência. Por exemplo: 1º) a afirmação de Brentano segundo a qual nada pode ser julgado sem ter sido previamente representado na mente. Assim, toda percepção interna resulta de um julgamento e todo julgamento ou é afirmação ou é recusa; 2º) a relação entre a percepção e a representação a partir dos julgamentos de atribuição e de existência, tendo em seu centro a distinção entre percepção interna e percepção externa; 3º) disso resulta o fato de que toda realidade é apenas individual (a realidade psíquica de Freud); 4º) por fim, amor e ódio constituem a base desses julgamentos mentais, segundo o princípio de uma força original prazer/ desprazer (acerca disso, encontramos o eu-prazer e a tese de Empédocles de Agrigento). Ver, por exemplo, Franz Brentano (1992).

[12] Para maior aprofundamento, ver Joël Bernat (2001).

[13] A principal função da psique é lutar contra tudo o que a excita (estímulos externos e internos), isto é, contra o que é fonte de tensão, de desprazer: “o sistema nervoso é um aparelho que tem por função livrar-se dos estímulos que lhe chegam ou reduzi-los ao nível mais baixo possível, e que, se fosse possível, se manteria absolutamente livre de estímulos”. (Freud, 1915a) Essa afirmação de Freud também pode ser encontrada no Projeto e no Esboço. Além disso, “O reflexo é o modelo de toda produção psíquica” (Freud, 1900, p. 456).

[14] Freud (1895).

[15] Parece-nos importante lembrar que, para Freud, a linguagem situa-se no pré-consciente, afirmação que ele mantém até Esboço de psicanálise. Por exemplo: “É a fala que permite aos conteúdos do eu estabelecer uma firme conexão com os restos mnésicos das percepções visuais e, principalmente, auditivas […] O estado pré-consciente, caracterizado, por um lado, pelo acesso à consciência e, por outro, pela vinculação com os traços verbais […] grandes porções do eu e particularmente do supereu, a que não se pode negar o caráter pré-consciente, permanecem em sua maior parte inconscientes no sentido fenomenológico da palavra.” (Freud, 1938, p. 25-26). Mais adiante, Freud aponta um risco de confusão: “os pensamentos pré-conscientes que expressam o material inconsciente do sonho são tratados como se fossem elementos inconscientes do id.” (p. 31). Para maior aprofundamento, ver Bernat (1996).

[16] Segundo esse ponto de vista, temos um sistema Pc-Cs que recebe percepções, mas não retém traço permanente delas, podendo assim reagir como uma folha em branco a cada nova percepção […]. Freud (1924).

[17] Bion acrescentará uma outra dimensão: um ataque do órgão da percepção responsável por esta.

[18] Ibid (1933).

[19] Ver, por exemplo, Freud (1905).

[20] “O eu é, acima de tudo, um eu corporal; não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é a projeção de uma superfície. Se quisermos encontrar uma analogia anatômica para ele, podemos identificá-lo melhor com o homúnculo cortical dos anatomistas, que fica de cabeça para baixo no córtex, tem o rosto virado para trás e, como sabemos, possui sua área da fala no lado esquerdo.” Freud (1923, p. 270)

[21] “[…] os traços permanentes das excitações recebidas são preservados em sistemas mnésicos que jazem por trás do sistema perceptivo. Posteriormente, em Além do princípio de prazer, acrescentei uma observação no sentido de que o inexplicável fenômeno da consciência surge no sistema perceptivo em lugar dos traços permanentes.” (Freud, 1924).

[22] Ver a carta a Jung de 14-21 de abril de 1907. (Freud; Jung, 1906-1909).

[23] Trata-se aqui da atividade do eu-prazer original: incorporar o bom e rejeitar o mau de uma coisa percebida, segundo o princípio de prazer, que funciona conforme o modo de atração (afirmação pela tendência unificante de Eros) e repulsão (negação e expulsão pela tendência destrutiva de Tanátos).

[24] “Pensamos nos traços mnésicos como se estivessem contidos em sistemas diretamente adjacentes ao sistema percepção-consciência, de maneira que as cargas psíquicas (catexias) desses traços podem facilmente estender-se para os elementos deste sistema. Imediatamente pensamos aqui nas alucinações e no fato de que a mais vívida lembrança é sempre distinguível, tanto de uma alucinação quanto de uma percepção externa; mas também encontramos em seguida explicação para isso no fato de que, quando uma lembrança é revivida, a carga psíquica permanece no sistema mnésico, enquanto que numa percepção, a carga (catexia) não se estende simplesmente do traço mnésico para o sistema percepção-consciência, mas se transfere inteiramente para ele.” (Freud, 1923).

[25] Ver, por exemplo, como os restos diurnos podem ser retomados e tratados nos sonhos, sendo que o mais belo exemplo é o da paramnésia ou dos sonhos ditos proféticos.

[26] Ver (Freud, 1938a).

[27] Por exemplo, em O mal-estar na civilização (1929), Freud define a religião como delírio de massa, portanto, uma paranóia: isso quer dizer que uma formação de desejo (Wunsch) vem substituir (vertreten) e mascarar um aspecto insuportável do mundo. Essa representação de substituição adquire uma qualidade da realidade por ser compartilhada por uma comunidade.

[28] O símbolo não é a marca de uma verdade, mas o marcador, o indicador de uma operação de censura. Ver (Freud, 1916). Os sonhos dos dentes quebrados é um exemplo notável: o sujeito é raramente capaz de associar sobre esses símbolos mudos.

[29] Ver Freud, (1920a).

[30]Freud explica o mecanismo da projeção na carta a Jung datada de 14-21 de abril de 1907. (Freud; Jung, 1906-1909).

[31] Ver o exemplo de Freud, (1925b). Freud dá um outro exemplo de descoberta da realidade do inconsciente em Freud, (1937). É o exemplo de uma teoria sexual infantil: trata-se de uma realidade histórica cuja descoberta desfaz uma realidade psíquica.

[32] Ver Freud, (1936), ou ainda Freud, (1925b).

[33] Freud retoma os dois tempos sucessivos que compõem o processo global da Bejahung (enunciados em Freud, 1911, p. 135-137): os julgamentos de atribuição e de existência. Freud situa o conjunto dessa operação em Eros, em oposição à negação, que, por sua vez, está do lado de Tanátos. Freud postula, a respeito da Bejahung, um elemento-chave presente em Nietzsche, a afirmação da vida (LebensBejahung), e a situa em Eros e na tendência deste à unificação, em oposição a Tanátos, do qual dependem as fórmulas de negação, isto é, a expulsão e a destruição (Freud, 1925b, p. 170.). Essa noção, até então reservada à filosofia ou à psicologia, é introduzida no vocabulário técnico e teórico da psicanálise e aclara o termo Behauptung, empregado anteriormente. Este termo significa igualmente afirmação, mas contém uma nuança de coerção exercida sobre o outro, de superar o outro. Completando assim seu vocabulário, Freud esclarece sua posição e se destaca tanto da Behauptungstrieb de Adler, pulsão de afirmação do indivíduo que subordina o comportamento sexual aos motivos egoístas, a emblemática vontade de potência, quanto da Selbstbehauptung, a afirmação de si de Trotter. O processo da Bejahung corresponde ao trajeto completo que vai da percepção pelos sentidos à consciência e à prova de realidade, e a Behauptung torna-se uma recusa da realidade a serviço da realidade psíquica.

[34] Minutes de la Société Psychanalytique de Vienne, tome I, 1906-1908, séance du 15-V-1907, Gallimard, 1976, p. 46, 96, 220.

[35] Freud (1932a).

[36] Minutes de la Société Psychanalytique de Vienne, tome I, 1906-1908, séance du 15-V-1907, op. cit.

* No dicionário de Hanns, o termo rejet [rejeição] em francês é uma das traduções possíveis para verwerfung, pois é este o sentido do termo alemão. Na tradução para o português, o termo proposto no mesmo dicionário é rejeição. O termo forclusion [forclusão] será proposto por Lacan somente mais tarde para traduzir verwerfung.

[37] Existe um tipo de defesa que difere do recalque: “[…] muito mais poderosa e bem-sucedida. Nela, o eu rejeita a representação insuportável juntamente com seu afeto e se comporta como se a representação jamais lhe tivesse ocorrido. Mas a partir do momento em que isso é conseguido, o sujeito entra numa psicose que só pode ser qualificada como confusão alucinatória”.

[38] Observemos que Freud emprega também o termo alemão Negation, que caracteriza não um processo, mas um resultado: o eu apôs uma negação sobre o conteúdo já recalcado, mas não existe negação possível, no inconsciente, da percepção sensorial, que sempre é inconsciente.

[39] Ver Freud (1937) É o caso com o Homem dos Lobos e a alucinação do dedo cortado.

[40] Isso indica que o recalque incide sobre uma representação consciente, ou seja, uma representação de coisa ligada a uma representação de palavra.

[41] Se falamos com freqüência do retorno do recalcado, podemos dizer o mesmo de todas as formações psíquicas que sofreram uma negação: poderíamos então falar de retorno do rejeitado, retorno do recusado, etc. Isso também significa que o rejeitado, em Freud, não é forcluído, tal como enuncia Lacan.

[42] Ver Freud (1937).

[43] Freud (1938b).

[44] Isso indica que o analista tem de refazer a ligação entre o branco apresentado na sessão e um outro elemento que se manifesta muitas vezes fora da sessão (à porta, na rua, etc.)

[45] Ver Winnicott (1971).

[46] Freud ilustra isso com a história do rei Boabdil em Um distúrbio de memória na Acrópole: o rei manda decapitar o mensageiro que lhe traz a notícia da queda de Granada, como se a mensagem (a significação) não tivesse sido entregue. Porém, sua depressão (o afeto) indica que a mensagem foi mesmo recebida.

[47] Ver, por exemplo, Freud (1927). A calça fetiche é a percepção investida contra a percepção que seguia da visão órgão sexual feminino e, portanto, de uma significação da diferença dos sexos.

[48] Ver Freud (1923): “A psicanálise não pode situar a essência da vida psíquica na consciência, mas encara esta última como uma qualidade do psíquico, que pode estar presente juntamente com outras qualidades ou estar ausente.” O que significa tornar algo consciente? Como fazer para obter esse resultado? A pergunta “Como uma coisa se torna consciente?” Seria assim mais vantajosamente enunciada: “Como uma coisa se torna pré-consciente?” E a resposta seria: “Vinculando-se às representações verbais que lhe são correspondentes.” A pergunta: “Como podemos fazer chegar à (pré) consciência elementos recalcados?” recebe a seguinte resposta: “Restabelecendo, através do trabalho analítico, os elementos intermediários pré-conscientes que são as lembranças verbais.” É assim que a consciência permanece em seu lugar, assim como o inconsciente não precisa deixar o seu para ir ao encontro da consciência.

[49] Em: Conseils aux médecins sur le traitement analytique (1912), Freud propõe a virgindade do sistema Pc-Cs como posição ideal do analista (“o inconsciente do analista deve estar voltado para o inconsciente transmissor do paciente, assim como um receptor telefônico se ajusta ao microfone transmissor.”). Ou então, em Freud, 1911, p. 135-137, a atenção vai de encontro às impressões dos sentidos, o que não acontece com a espera passiva. A regra fundamental, tão necessária para o paciente quanto para o analista, parece estar composta da seguinte maneira:

– a neutralidade favorável é a suspensão de qualquer julgamento a priori que se oporia ao trajeto da representação da percepção transferencial;

– a escuta flutuante como modo de manter a escuta virgem, acessando o inconsciente perceptivo e sua memória (os traços mnésicos);

– a livre associação para deixar desenvolver-se o livre jogo das relações entre a percepção e os traços mnésicos, sem a censura de uma negação ou de uma substituição.

[50] Ver a última conferência em Freud (1932a).

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